12 maio, 2022

(aula) Fratricida (I)

(aula)

Fratricida (I)

de Maio

2022














Dominique Reymond na encenação de Martin Crimp,
The rest will be familiar to you from cinema. Festival d'Avignon, 2019.

Por um lado, fizemos uma introdução geral à função do teatro na Grécia, e, por outro, uma descrição breve da chamada lenda dos Labdácidas (a partir da qual foi escrita a peça As Fenícias, por Eurípides). Neste contexto, demos uma atenção aguda ao mito de fundação de Tebas, mito sustentado em dois esteios principais: a autoctonia e a denegação da maternidade. É à luz destes elementos que podemos compreender a instituição da lógica identitária que levou à guerra — fratricida — entre os dois filhos de Édipo (Etéocles e Polinices) e, porventura, que continua a levar à guerra — desde então — entre os humanos. Tal é, pelo menos, a intuição central de Martin Crimp, que reescreveu exemplarmente a peça euridipiana. 


Fonte da imagem:
L’oeil d’Olivier, 2020-2-21
https://www.loeildolivier.fr/2020/02/dominique-reymond-jocaste-au-tribunal/ [2022-5-5]

24 abril, 2022

(aula) Porquê a Guerra (V)

(aula)

Porquê a Guerra? (V)

11 de Abril

2022



Imagem do filme de Zaza Urushadze, Tangerinas(Geórgia/Estónia, 2013, Cor, 87’) (1:24:24)

Nesta aula visionámos o filme Tangerinas (Geórgia/Estónia, 2013, 87’), de Zaza Urushadze; deixamos aqui a transcrição do diálogo final do filme, talvez uma possível resposta à questão que temos lançado nos últimos encontros: Porquê a Guerra?

(1:26:48)

Ahmed — E Nika?
Ivo — Enterramo-lo noutro lugar.
Ahmed — Onde?
Ivo — Ao lado do meu filho.
Ahmed — Como é que ele morreu?
Ivo — Foi morto quando a guerra começou.
Ahmed — Por quem?
Ivo — Só Deus sabe. Ele foi logo para a guerra. Para defender a nossa terra, disse ele. Tentei falar com ele, dissuadi-lo, explicar-lhe que esta é uma guerra que não é de ninguém, mas ele não me ouviu.
Ahmed — Então foram os georgianos que o mataram.
Ivo — Sim. Mas que diferença é que faz?
Ahmed — Como assim? Enterraste um georgiano ao lado do teu filho.
Ivo — Ahmed, isso faz alguma diferença? Responde-me?
[silêncio]
Ahmed — Não.

07 abril, 2022

(aula) Porquê e a Guerra (IV)

 (aula)

Porquê a Guerra? (IV)

de Abril

2022





















Anselm Kiefer, Böse Blumen, 2016

Photo © White Cube


Partimos da questão deixada por Paulo Sarmento — Que história vamos contar a nós próprios para suportar a guerra? — e voltámos a visionar o depoimento de John Maersheimer sobre a guerra na Ucrânia. Seguiu-se uma debate intenso e cruzado que teve, de algum modo, como fio condutor um recente texto de Maurizio Lazzarato, intitulado «A Guerra na Ucrânia» (e publicado na revista Punkto). Deixamos aqui os dois excertos que suscitaram mais intervenções e desenvolvimentos: 

«[…] desde que o Departamento de Estado [Americano] anunciou o fim da História (1989), a paz e a prosperidades sob o beneplácito do Tio Sam, o Pentágono e o exército americano produziram uma sequência impressionante de missões humanitárias pela fraternidade entre os povos:

Panamá 1989 / Iraque 1991 / Kuwait 1991 / Somália 1993 / Bósnia 1994 – 1995 / Sudão 1998 / Afeganistão 1999 / Iémen 2002 / Iraque 1991 – 2003 / Iraque 2003 – 2015 / Afeganistão 2001 – 2015/2021 / Paquistão 2007 – 2015 / Somália 2007-2008, 2011 / Iémen 2009 – 2011 / Líbia 2011, 2015 / Síria 2014 – 2015.

Sem rivalizar com tal recorde, depois da Chechénia e da sua guerra de extermínio (com a cumplicidade do Ocidente), usando o terrorismo como inimigo principal da humanidade, coube à Rússia esmagar qualquer traço de Primavera síria e salvar o regime de Assad, através de suas «operações militares especiais» na sua zona de influência (Geórgia, Moldávia, Ucrânia). Mas as guerras entre as potências nunca acontecem sem serem acompanhadas por guerras de classes, guerras raciais e guerras contra as mulheres, que cada Estado trava por sua própria conta.»

«Só podemos estar do lado dos inocentes que morrem na Ucrânia sob os bombardeamentos, presos entre dois cinismos que jogam sujo para determinar o futuro do mercado mundial. Os russos não querem ceder à vontade hegemónica americana que se manifesta pela instalação dos mísseis nucleares na Roménia, Polónia e (por vir) na Ucrânia, enquanto a estratégia americana do caos é totalmente “racional”: isolar a Rússia (para em seguida isolar a China) e assim romper a aliança em gestação entre as duas potências ex-comunistas, reagrupar os europeus por trás dos EUA que, através da NATO, continuam a ditar a sua «política externa económica», recuperando-se assim de uma enésima derrocada no Afeganistão. / Contrariamente ao que se acredita, o confronto entre os EUA e a Rússia, que é o pano de fundo desta guerra, não é entre democracia e autocracia, mas entre oligarquias económicas semelhantes em muita coisa, nomeadamente no facto de serem oligarquias rentistas. "É mais realista considerar a política económica e estrangeira dos EUA em termos de complexo militar-industrial, complexo petroquímico (e de minério), complexo bancário e imobiliário, do que em termos de política de republicanos e democratas. Os principais senadores e deputados do Congresso não representam tanto seus Estados e distritos mas os interesses económicos e financeiros dos seus principais contribuintes no financiamento das suas campanhas políticas" (Michael Hudson). Desses três monopólios rentistas, o militar-industrial e o petroquímico contribuíram amplamente na estratégia que levou à guerra. O primeiro é o principal fornecedor da NATO, o segundo quer substituir a Rússia como fornecedor principal do gás na Europa e, eventualmente, apropriar-se da Gazprom.»

31 março, 2022

(aula) Porquê a Guerra? (III)

 (aula)

Porquê a Guerra? (III)

28 de Março

2022

Francisco de Goya y Lucientes, Luta de Bastão até à morte, c. 1820-23
Copyright ©Museo Nacional del Prado


Nesta aula, prosseguimos a interrogação proposta por Paulo Sarmento a partir do livro Verdade e Política, de Hannah Arendt, com particular incidência em duas passagens: 

«A posição no exterior do domínio político — no exterior da comunidade à qual pertencemos e da companhia dos nossos pares — é claramente caracterizada como um dos diferentes modos de estar só. Eminentes entre os modos essenciais do dizer-a-verdade são a solidão do filósofo, o isolamento do sábio e do artista, a imparcialidade do historiador e do juiz, e a independência do descobridor de facto, da testemunha e do repórter. Estes modos de se ser-se só diferem sob muitos aspectos, mas têm em comum que durante tanto tempo quanto um deles dure, nenhum compromisso político, nenhuma adesão a uma causa é possível. […] É absolutamente natural que tomemos consciência da natureza não política e, virtualmente, anti-política da verdade […]» (p. 54)

«Aquele que diz o que é […] conta sempre uma história, e nessa história os factos particulares perdem a sua contingência e adquirem um significado humanamente compreensível. É perfeitamente verdade que «todas as dores podem ser suportadas se as transformarmos em história ou se contarmos uma história sobre elas», de acordo com as palavras de Karen Blixen […]. Ela teria podido acrescentar que, igualmente, a alegria e a felicidade apenas se tornam suportáveis e significativas para os homens quando eles podem falar delas e contá-las como uma história. Na medida em que aquele que diz a verdade de facto é também um contador de histórias, realiza essa «reconciliação com a realidade» que Hegel […] entende ser o fim último de todo o pensamento filosófico […]» (pp. 56-7)


Paulo Sarmento transpôs estes desenvolvimentos, deixando-nos com esta questão: que história vamos contar a nós próprios para suportar a guerra? A guerra em geral e esta guerra — a da Ucrânia — em particular? 

Na sequência desta pergunta, que começou por suscitar um vivo debate, visionámos ainda um excerto de uma intervenção recente de John Maersheimer (professor na Universidade de Chicago) sobre a guerra. A dado momento da sua argumentação, e como que em eco à pergunta de Paulo Sarmento, Maersheimer afirma o seguinte acerca dos EUA (e da NATO): “Mas claro que tivemos de inventar a história [do expansionismo russo] depois da crise surgir [em 2014] para que nós não fôssemos culpados pelo que aconteceu. Nós tínhamos de culpar os russos.” Seguir-se-á, necessariamente, um debate na próxima aula. 

24 março, 2022

(aula) Porquê a Guerra (II)

 (aula)

Porquê a Guerra? (II)

21 de Março

2022

Goya, «Escapam entre as chamas», gravura nº 41
da série Desastres da Guerra, 1810

Nesta aula, conduzida por Paulo Sarmento, detivemo-nos principalmente em três excertos do livro Verdade e Política, de Hannah Arendt:

«São efectivamente muito ténues as possibilidades que a verdade de facto tem de sobreviver ao assalto do poder […]. Os factos e os acontecimentos são coisas infinitamente mais frágeis que os axiomas, as descobertas e as teorias — mesmo as mais loucamente especulativas — produzidas pelo espírito humano; ocorrem no campo perpetuamente modificável dos assuntos humanos, no seu fluxo em que nada é mais permanente que a permanência, relativa, como se sabe, da estrutura do espírito humano».

«Considerada de um ponto de vista político, a verdade tem um carácter despótico. Ela é por isso odiada pelos tiranos […]».

«[…] A verdade de facto não é mais evidente que a opinião, e essa é talvez uma das razões pelas quais os detentores da opinião consideram relativamente fácil rejeitar a verdade de facto como se fosse outra opinião. A evidência factual, além disso, é estabelecida graças ao testemunho de testemunhas oculares — sujeitas a caução, como se sabe — e graças a arquivos, documentos e monumentos — de cuja falsidade pode sempre suspeitar-se».

Estes três excertos suscitaram um debate em torno, por um lado, da impossibilidade da instituição de uma verdade absoluta (ou metafísica), e, por outro, da necessidade de não ceder a um certo relativismo, ele próprio absoluto, que cauciona a ideologia da «pós-verdade». Importa agora compreender esta «posição» ontologicamente frágil da verdade e a sua relação com o poder dominante no Ocidente, isto é, com aquele que tem servido para exercer a dominação económica, financeira, política e, quando necessário, militar (dentro e fora do seu espaço geográfico). É a esta luz que, na próxima aula, tentaremos aprofundar a relação entre a verdade e a guerra em curso na Ucrânia.

17 março, 2022

(aula) Porquê a Guerra ? (I)

 (aula)

Porquê a Guerra? (I)

14 de Março

2022


Goya, «Estragos da Guerra», gravura nº 30
da série Desastres da Guerra, 1810

Começámos o nosso encontro com a leitura de um breve texto do Paulo Sarmento, «Preparar a Paz» (entretanto publicado aqui:_), o qual nos impeliu a questionar se esta guerra, em curso na Ucrânia, é uma guerra de agora ou se estivemos em paz até agora… E ainda: quem pode beneficiar com a guerra e não com a paz?


Num segundo momento, lemos alguns excertos de dois textos de Alexandre Koyré, «A Quinta Coluna» (1945) e «Reflexões sobre a Mentira» (1943). «A Quinta Coluna» foi uma expressão primeiramente usada pelo General Franco («As quatro colunas que se aproximam de Madrid serão apoiadas por uma quinta, que já se encontra dentro»), dando-lhe Koyré depois o sentido preciso de «inimigo interior», expressão da traição, pois a quinta coluna age na sombra para salvaguardar sempre os interesses próprios.


Como sintetizou Juan José Saer, num artigo justamente intitulado «O inimigo interior» (publicado na Folha de São Paulo a 5 de Maio de 2002): «Para Koyré, qual é o setor cujos interesses estão acima dos interesses de Estado e da sociedade, da comunidade cidadã e da nação, e que ao longo da história humana, em qualquer tempo e lugar, manobrou como quinta-coluna para salvaguardar seus próprios interesses (…) chegando até a se aliar com o inimigo? Simplesmente: Os ricos. […] Denominando-se multinacionais, […] os ricos de hoje são representados pelos enormes capitais concentrados nas mãos de uns poucos que se confundem num arquipélago de atividades e de empresas envoltas numa brumosa opacidade. […] Essa concentração, cujo crescimento imperativo é uma verdadeira máquina de guerra económica e social, […] determina nos mais variados pontos do planeta, sua existência cotidiana, seu bem-estar ou seu sofrimento, seu nascimento e sua morte».

Prosseguimos com a leitura do segundo texto de Koyré, «Reflexões sobre a Mentira», publicado em 1943 na Revista Renaissance, pela École Libre des Hautes Études (volume I, fascículo I, Janeiro-Março de 1943), tradução de Marta Rios Alves Nunes da Costa. Desse texto, destacamos o seguinte excerto: «Mas se a guerra, de carácter excepcional, episódico, passageiro, se tornasse um estado perpétuo e normal? É claro que a mentira, no caso excepcional, tornar-se-ia também ela normal, e que um grupo social que se vê e se sente rodeado de inimigos não hesitará em empregar a mentira contra eles. Verdade para os seus, mentira para os outros, tornar-se-á uma regra de conduta e entrará nos costumes do grupo em questão».

09 março, 2022

(aula) O capitalismo é masculino? (II)

 (aula)

O capitalismo é masculino? (II)

7 de Março

2022
















Miguel Ângelo, A criação de Adão, c. 1511

Capela Sistina, Vaticano

Nesta aula, a partir da investigação de Potira Maia, demos continuidade ao debate acerca das tensões estabelecidas entre homens e mulheres desde os primórdios da humanidade na tentativa de responder à pergunta: O capitalismo é masculino? Num primeiro momento, tentámos compreender, com o apoio de um ensaio de José Gabriel Pereira Bastos («O inconsciente do dinheiro, símbolo do poder fálico»), de que modo o dinheiro é a «forma maior» do delírio colectivo. Compreendendo este a partir da definição de Durkheim (o delírio é «todo o estado no qual o espírito acrescentou algo aos dados imediatos da intuição sensível», projectando nestes os seus sentimentos), Pereira Bastos escreve: «Se partirmos da actualidade, o dinheiro é a forma maior desse delírio que serve não apenas a Religião monoteísta — isto é, a busca inconsciente da imortalidade, concentrada na Aliança homoerótica com o Pai — mas o que lhe subjaz, a inveja masculina da fecundidade feminina e o roubo despótico da centralidade da fecundidade das Mães, produtoras de Vida. Inveja essa que inventa a guerra dos sexos e condena uma parte dos Homens, constituída como “A Elite”, a se assumirem como gestores da Guerra Eternizada e como produtores do roubo, da Destruição e da Morte em grande escala, enquanto produzem discursos sobre Paz, Democracia, Cooperação e Igualdade».   
 
Esta proposição conduziu-nos directamente ao segundo autor estudado, Jean-Joseph Goux, que detecta, na causa de qualquer guerra, uma razão teológica. Neste sentido, Goux, embora não escrevendo sobre a «inveja masculina», esclareceu-nos que esta se baseia, em última instância, numa inveja de natureza teológica, pois a fecundidade feminina manifesta o poder único e divino de criar vida. Mas o texto de Goux levou-nos ainda mais longe — projectando uma luz rasante sobre a actualidade da guerra: «Qualquer guerra é assim e sempre uma guerra de “religião”, no sentido em que necessariamente ela transfere os interesses em luta e as energias mobilizadas para o desfile de alguns significantes últimos aos quais se vêm agarrar as razões de viver — que são sempre as melhores e as únicas razões de morrer. É por isso que uma guerra precisa sempre de uma religião — seja qual for a sua forma; ou inversamente, podemos chamar “religião” a todo o dispositivo significante (qualquer que seja, mas ele somente) que se aguenta até ao ponto de justificar a guerra» («Freud et la structure religieuse du nazisme», in Les iconoclastes).
 
Destas leituras e do debate que se seguiu, extraímos duas definições — uma acerca da guerra, a outra sobre a religião (a primeira sendo proposta por Paulo Sarmento):
—  a guerra é o choque entre duas (ou mais) dominações da vida;
— a religião é toda a representação que aguenta uma guerra (no duplo sentido da expressão: aguenta porque sustenta ideologicamente uma guerra, e aguenta porque supera a provação da guerra: a guerra é a prova experimental e sacrificial da religião).  
 
No final da aula — conturbado pela urgência da pergunta «Porquê a guerra?» — evocámos excertos de um texto de Alexandre Koyré, «Reflexões sobre a Mentira» — o qual nos deu o mote para a próxima aula.