(aula)
Para além do medo (III)
2 de Dezembro
2024
Em seguimento da aula anterior, continuámos a leitura do texto "Hegel, a morte e o sacrifício" (1955), de Georges Bataille, aprofundando, neste segundo momento, o pensamento do Hegel e de Bataille em torno do sacrifício.
Partindo do que falámos anteriormente, do ser humano contemplar o negativo, isto é, aquilo que não é, e com isso ele ser capaz de descobrir a potência do espírito em si mesmo e do seu trabalho no mundo, vimos que há algo no pensamento da morte que carrega em si um potencial de revelar a verdade humana. No entanto, se é só com a morte que essa verdade é revelada, como mostra Bataille ao pensar sobre as palavras de Hegel, chegamos a um paradoxo existencial que nos diz que é preciso morrer para nos confrontarmos com essa revelação da vida humana. Ora, sendo isto impossível de acontecer, esta experiência, que é, de algum modo, procurada pelo homem na experiência com a natureza, só consegue ser experimentada através da representação, isto é, através da encenação de uma morte, da criação de um artifício — como o caso do teatro — que permita ao ser humano confrontar-se com a realidade da morte em vida.
É, então, este jogo da representação, da capacidade de sentir a experiência de um outro como íntima, que a vida espiritual do ser humano se revela. E é assim que a imagem se torna representável, isto é, exteriorizada pelo homem — que, como vimos, é esse interior atravessado por imagens — no mundo. A sua relação com uma morte fictícia, com a representação de uma morte, é aquilo que faz o ser humano confrontar-se com o negativo na sua vida e é nesta relação que a representação e a linguagem são construídas.